Guru de Mim, Eu Sou


Ela olhou pra cima, o rosto tenso, uma expressão de súplica.
Fitou o teto, branco, mas seu olhar era penetrante
Ela conseguia ver por ele, e imaginava como estava o céu naquele exato local
As lágrimas lentamente brotavam da parte de baixo dos seus olhos
E o queixo tremia levemente.
"Eu não me encaixo em lugar nenhum" - disse, a voz um pouco rouca pelo volume baixo que usava, só pra certificar que ninguém em casa ouvira.
"Deus, por que tu criou uma peça que não encaixa em nenhum outro lugar desse quebra-cabeças?" - completou.

A lágrima do olho direito sempre caia primeiro, e com a mão esquerda ela secou antes que a gota escorresse pela maçã do seu rosto, já que sentiria cócegas.
"Rir assim de forma espontânea é a última coisa que quero agora" - pensou, mas algo estalara em sua cabeça.
Como, em um momento de tanta melancolia, uma coisa tão pequena a teria feito sorrir?
Nascia em seu íntimo uma necessidade de autoconhecimento
Era preciso agora saber de tudo que se passava em seu corpo, sua mente e sua alma.
Sentou numa cadeira e sentiu onde seu corpo a tocava. Sentia o leve calor nas suas articulações, como se o sangue estivesse concentrado ali. Seus pés formigavam um pouco, e o músculo da coxa esquerda tremia a cada poucos segundos. Sentiu cada local que suas roupas tocavam sua pele, o peso do seu cabelo sobre os ombros. O rosto ainda estava tenso, a boca meio aberta e as sobrancelhas franzidas.
Seu peito inflava e retrocedia a cada respiração, e então percebeu que há muito tempo não reparava que estava respirando.
"Como sabemos como uma pessoa está viva, num primeiro momento?" - se perguntou, mas já sabia a resposta:
"Batimentos cardíacos e movimentos respiratórios" - respondeu, a voz um pouco mais firme e alta.
"Então, se não percebo que respiro, e além disso, não paro para sentir que meu coração pulsa, quem pode dizer que estou vivendo?" - disse baixinho enquanto a mão esquerda pairava sobre seu abdômen e a direita sobre seu coração.
Pela primeira vez, e não sabia dizer precisamente desde quando, ela sentia a sua vida.
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Nós vivemos sem tempo para nós mesmos.
Comer algo ou beber alguma bebida que você gosta não é ter um tempo pra você, é somente tapar um buraco que cresce diariamente, cada dia que você passa lá fora.
Tem gente que não é de verdade, tem palavras que você não entende como podem ter sido ditas.
E tudo que você vive a partir do momento que abre seus olhos pela manhã e abre a porta do quarto até o momento em que a fecha pra dormir no final do dia te pesa.
Quem sofre primeiro é a tua cabeça, que leva a primeira martelada.
Depois são os ombros, quando você carrega o peso do Mundo nas costas.
As pernas cedem logo depois, os pés inchados, enquanto os joelhos lentamente se dobram e atingem o chão.

Mas não precisa ser desse jeito, e já foram inúmeras as vezes em que você caiu e se levantou de novo. Sim, são 365 vezes por ano.
Eu sei o peso que você está carregando agora mesmo, enquanto lê.

Cada vez que abrir alguma porta, lembre de notar sua respiração.
Cada vez que sentar em uma cadeira, lembre de notar o seu coração bombeando.
O Universo lhe deu um quebra-cabeça, mas é você quem está montando. E você sabe bem onde quer que a peça se encaixe.