Outuno num quente tom



Hoje eu vi mais um se perder
Tudo por um par de olhos azuis.
Quando o azul do céu não é o bastante
Quando o azul do mar lhe parece mais verde
Do que adiantas ?

Não há manta, não há poncho
Que combata este frio
Quem apostava um dia que só ganharíamos na loteria
De decepções a mil ?

Ansiamos pela parte final
Quando o fim começou com um simples não
E se você espera mesmo que tua vida seja apenas um filme
Talvez não seja sábio esperar pela cena depois dos créditos.

Eu anoiteci e tu está na cama, agora
Os cabelos ainda molhados do banho
A noite tá fria e tu olhas pra fora

E acaba pensando, por um segundo
Será que alguém virá?

Como posso ir lhe salvar, meu bem, se eu já cheguei à Lua?

Eu não sei predizer quem errou primeiro
Não há passado ou futuro quando eu sonho com você.
Siga teus sonhos mesmo quando não sonhares nada.
Tal como o Fogo, dom dos céus,
Se a revolta se apega a ti, que doa a quem se opor.
Não há água que lhe apague, mesmo quando estiveres toda molhada
Porque suarás sem mesmo colocar o pé a frente
E por isso mesmo nunca sairá do lugar.

A vida é feita de fases
E mesmo que o presente queira importar coisas do futuro
Saiba que tudo que importa, é aproveitar os meses que se vão.
Os meus cigarros já fazem uma montanha no chão
E eu nem comecei a escalar
O vinho que deveria me alegrar me deixa sem noção
De notar as pequenas coisas, imperfeitas, inseguras.

Tudo que nos traz felicidade fora feito um dia sem pensar
Não que a inteligência não nos traga bons frutos,
Mas o instinto nos deu sobrevivência
E a demência que tu achas que tem quanto a algum sentimento que persevera
Na verdade nada mais é que tua própria humanidade
Que um dia te enche de saudade
E no outro, simplesmente te invade.

Assim passo todos os dias
Entre mães, entre filhas
Porcentagens de uma comunidade que cresce
Só vejo um par de sorrisos que esmaecem
Primitivos
Escondidos
Sufocando um coração que há muito só sente sangue.

Não te peço que se mude
Nem que mude por mim
Já aprendi da pior forma que tudo tem um fim
Naquele fevereiro estranho
Em que eu pensava que o jogo estava ganho.

Acabei vivendo em busca de um destino perfeito
Quando estava destinado apenas ao mediano
E hoje com o vinho derramado não há pano que possa secar
Tantas lágrimas
Tantas chuvas que caem num dia de sol
Enquanto procuramos um farol
Qualquer
Que possa nos guiar nessa escuridão.

Sei que não é fácil viver
Quando a vida é feita de escolhas
Por ora falhas
Escassas
Como frutos em árvores no inverno.
E tudo que espero nestes dias
É um abraço terno
Repleto de um sentimento que ainda não conheci,
Nem vivi
E sei que não posso fugir.

Quando olhares um calendário qualquer
Saiba que dias melhores estão por vir
A partida é uma questão de decidir
E nem sempre és tu que estás no timão.
Somos nada além de barcos veleiros
A mercê do sopro do ar
Rezando pra deuses da tempestade
E esperando que ainda tenhamos idade
Pra viver a vida dos sonhos
Que não seja cheia de acanhos
Pois eu não tenho mais tempo.

E tu, corras como o vento
Porque estou aqui
A te esperar
Ainda acreditando em tons mais claros pra uma música
Que só começarei a escrever contigo.
Juro-te que serei teu amigo
E tudo o mais que precisar
Porque sei que nasci pra ti
E sei que tu virás pra ficar.