Lição das Trevas: Um Outro alguém

     O fim daquela noite marcava o segundo dia sem dormir. Não deveria sobrar muito de minha sanidade agora que já lutava contra os limites de meu próprio corpo. Os braços chacoalhavam e não era apenas de calafrios. Ele desferia seus golpes com seu olhar.
    O céu escuro atingia cores róseas aos poucos. Não havia mais estrelas visíveis. Apesar de iniciar mais um dia, parecia que a cada minuto que se passava eu estava mais perto do final. A minha triste derrota já era eminente, sabia o que estava para acontecer. Sabia de tudo, menos da verdadeira identidade Dele.
- Eu não sei mais chorar, pois algo em mim se secou. - disse sem muitas palavras na boca rachada.
- Precisamos dar nome aos nossos sofrimentos, pois é muito mais fácil enfrentar um inimigo depois que o conhecemos. Ser um humano é estar à mercê da escuridão, pois tudo o que é desconhecido nos assusta.
- Eu nunca consegui entender os outros! São sempre tão imparciais para mim. Já não quero mais falar de meus problemas, já desistir de muitas coisas, inclusive de te conhecer.
- Percebestes agora de onde vem seu temor? Você parece que tem medo de viver sozinho.
Sozinho... como tem sido nesta estação.
- É muito duro estar só. Mais ainda quando não consigo dançar no mesmo ritmo dos problemas. Lidar com os outros sempre me pareceu mais difícil do que lidar comigo mesmo. Hoje vejo o contrário e o quão tolo fui. Queria que as pessoas fossem diferentes.
    A alvorada emergia das sombras, revelando toda a podridão do ambiente. O silencio do horror a nossa volta ofegava minha respiração. Sempre havia grandes pausas entre nossas discussões, e o silencio as vezes machucava. Tirando Ele, não havia nada de pé, nem mesmo minha própria imagem embrulhada pela terra do chão selvagem. Ver tudo isto sem expectativas era desesperador.
   Um pássaro negro voou por cima de nós quando Ele voltou a dizer:
- Existe congruência nas relações? Ou será que tudo parte de um interesse em comum?
- Você me disse uma vez que quando julgamos, já estamos errando. Mas isto torna as coisas complicadas demais. Como agir sem julgar os outros? Como conseguir um ideal sem manipular alguém? Como ser a luz sem criticar as trevas?
    Ele fez pausa. Ia dizer algo mas hesitou. Fora a primeira vez que recebia ajuda para me levantar, contrariando tudo que havia pensado ao seu respeito. Ele sorriu para meu espanto. Nunca tinha visto Ele sorrir.
- Você se contradiz muito, garoto. Só não se esqueça que não conseguimos mudar ninguém, apenas nos mesmos. Só quando você muda, é que percebemos a mudança em Outro alguém.